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 "Educação não transforma o mundo.

Educação transforma pessoas.

Pessoas transformam o mundo".

Paulo Freire

 

 

‘SÓLO LE PIDO A DIOS’

‘Sólo le pido a Dios/ qui el dolor no me sea indiferente/ que la reseca muerte no me encuentre/ vacía y sola sin haber hecho lo suficiente’, ressoava a canção-hino de Leon Gieco, enquanto os casais portadores de Sindrome de Down dançavam pelo amplo salão, embalados pelo som latino-americano. Ao meu lado, a professora Larisse Moraes chorava de alegria e emoção.

                ‘Sólo le pido a Dios/ que lo injusto no me sea indiferente’, cantou e dançou um conjunto de belas/os dançarinas/os jovens, ante o olhar embevecido, terno e feliz dos presentes.

                Ao lado de várias outras experiências de escolas, a professora Larisse e dois alunos apresentaram o Projeto Afroativos, ‘Solte o cabelo, prenda o Preconceito’, da EMEF Saint Hillaire da Lomba do Pinheiro, Porto Alegre, uma proposta de empoderamento, conscientização e transformação, apresentando  ‘os resultados na autoestima dos alunos e o caráter multiplicador das ações’ (ver em facebook.com/afroativos/).

                Tudo isso e muito mais aconteceu no XVIII Congresso e XXVII Seminário Internacional de Educação Popular, acontecido em junho de 2018 em Santa Maria, Rio Grande do Sul, promovido pelo MOBREC/SM (Movimento Brasileiro de Educadores Cristãos) e várias instituições, com o tema: EDUCAÇAO POPULAR: PROTAGONISMO DOS SUJEITOS NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO PARA O EXERCÍCIO DA CIDADANIA ATIVA.

                O tema não podia ser mais atual. Estamos em tempo de intolerância, de ódio, de perda de direitos, de ameaças à democracia, não só no Brasil, também na América Latina e no mundo. Lembrava a Carta Convite do MOBREC (www.mobrec.com.br), fundado em 1978, as palavras de Paulo Freire: “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática.”

                Moacir Gadotti, do Instituto Paulo Freire, falando da educação popular e do protagonismo dos sujeitos na formação da democracia e da participação cidadã, falou do peregrino e andarilho da utopia que foi Paulo Freire, em 20 anos de andança pelo mundo. E disse Gadotti: ‘Paulo Freire está vivo e um outro mundo é possível’.

                O momento mais importante é a reflexão crítica sobre a prática, importante, com o testemunho, na educação. “É fundamental discutir o protagonismo num momento de desconstrução da democracia, num ano, 2018, quando comemoramos os 50 anos do aparecimento da Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire. Precisamos lutar pela democracia, que não se faz de um momento para outro. A formação da consciência é insuficiente. É preciso empoderar o sujeito popular, que ele seja protagonista. A educação tem que ter a lógica da utopia, da democracia radical.” 

                O professor Roberto da Silva, falando do Projeto Político-pedagógico, o PPP, da educação social e da participação cidadã, disse: “É preciso contemplar a diversidade dos sujeitos. Há a emergência de novos sujeitos de direitos. Assim, o perfil do educador deve ter mais o perfil do educador social, a escola pública brasileira cumprindo uma função social.”

                O colombiano Marco Raúl Mejia, falando sobre o papel do professor na construção da educação emancipadora, e que está lançando o livro Educação e Pedagogia críticas a partir do Sul (ver em http://pedroejoaoeditora.com.br) disse que a “sistematização é uma forma de organizar as práticas, fazendo do professor e da professora produtores de conhecimento.  A proposta de aprendizagem deve ser baseada no diálogo de saberes – a intraculturalidade -, na confrontação de saberes e na negociação cultural – transculturalidade. Segundo Anibal Quijano, ‘vivemos a emergência de um momento histórico sem precedentes, o que traz, pela primeira vez em mais de 500 anos de subordinação, silêncio e colonialismo, e faz emergir a possibilidade de outro horizonte de sentido da história’.”  

                ‘Sólo le pido a Dios/ que la guerra no me sea indiferente/ es um monstruo grande y pisa fuerte/ toda la pobre inocencia de la gente.’

                Diz a Carta Compromisso do Congresso: “Nós, educadoras/es populares, professoras/es das redes públicas municipal, estadual e federal, membros de sindicatos, estudantes de educação básica e do ensino superior e comunidade em geral, estivemos reunidos no Clube Recreativo Dores, na cidade de Santa Maria, a fim de refletir sobre o momento presente, a conjuntura de contextos e processos educacionais vigentes. Além disso, apontar situações que contribuem para que os modelos políticos e econômicos que insistem em colocar a lógica do Mercado e do Capital acima da dignidade humana não negligenciem e nem reneguem a educação. Este histórico evento educacional, nestes tempos difíceis, configura-se como um espaço de denúncia, anúncio, luta e resistência.

                Frente a estes contextos que estamos denunciando e anunciando, queremos apresentar nossa resistência, por meio de Proposições, pois entendemos que cada um e cada uma de nós é responsável pelo ‘Novo Mundo possível’ com o qual sonhamos e acreditamos.

                - Efetivar a Gestão Democrática em todos os espaços educativos, como elemento fundamental para a autonomia, a emancipação e o protagonismo dos sujeitos;

                - Resistir à lógica do Mercado, que insiste na reprodução do sistema neoliberal;

                - Ampliar o debate acerca do projeto ’Escola Sem Partido’, que visa amordaçar estudantes e educadores em sua capacidade crítica de reflexão;

                - Disseminar as propostas teórico-metodológicas da educação popular como alternativa de resistência e de formação de sujeitos protagonistas;

                - Buscar a consolidação de uma escola de respeito às diversidades, em suas diversas manifestações;

                - Construir pedagogia para inclusão, paz, educação popular, que respeitem a epistemologia do sujeito aprendente;

                - Efetivar o Congresso Internacional de Educação Popular e os demais eventos concomitantes no calendário das instituições promotoras e apoiadoras dos mesmos.

                Diz a Carta, ao final: “Saímos destes eventos (e saí eu, grifo meu) com um sentimento renovado de corresponsabilidade, pois entendemos que, nas palavras de Paulo Freire, ‘só a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda’.”

As educadoras e educadores populares, cristãos e não cristãos, constroem o futuro, garantem direitos, ampliam a democracia, ‘soltando os cabelos e prendendo o preconceito’, participam da construção do conhecimento, educam sujeitos da História, que exercem, de fato e de direito, na prática e na vida, a cidadania ativa.

                Na voz poderosa de Mercedes Sosa, vale cantar: “Sólo le pido a Dios/ que el futuro no me sea indiferente/ desahuciado está el que tiene que marchar/ a vivir una cultura diferente.”

               

Selvino Heck

Ex-deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política

De CEAAL Brasil (Conselho de Educação Popular da América Latina e Caribe) pelo CAMP (Centro de Assessoria Multiprofissional)

Junho de dois mil e dezoito